sobre a morte

sim, a morte.

mais uma tarde normalmente cansativa de volta da faculdade pra casa. tudo dentro da normalidade. do nada, eu olho pra frente e vejo um policial pedindo ao motorista do ônibus onde eu estava que parasse. outros policiais estava retirando um corpo da pista central [a pista estranhamente seca, sem sinal de sangue ou qualquer outra coisa que possa sair do corpo de uma pessoa recém morta].

o fato mais estranho não se limitava ao estado da pista, mas ao comportamento das pessoas que estavam na calçada onde o corpo foi colocado [já ensacado].
muita gente saindo do trabalho, muita criança voltando da escola, muita gente que parecia morar na redondeza. todos deram um jeito de sair de perto do corpo, mesmo que isso significasse cair em plena avenida brasil em horário de rush.

pensando em toda essa aversão, eu comecei a lembrar de como a tradição da morte é vista em lugares como o méxico. não é que se celebre o fato de uma pessoa morrer, mas é nítida a compreensão de que a morte é parte do pacote e eles celebram. e a diferença cultural não é tão sem fundamento como se pode imaginar. esse entendimento se baseia no cristianismo: nascimento, morte e ressureição.



deixando de lado quem compreende e quem não compreende [e, por favor, que eu não seja tomada como insensível por compreender a morte. até porque, certamente chorarei a morte de entes queridos], é fato que existe a necessidade de mencionar que a ideia sobre a pessoa muda de uma forma absurda!
não sei se a faculdade [de enfermagem] me coloca mais exposta a esse tipo de conclusão, mas o que eu vejo é que o cara que tá deitado na mesa do laboratório de anatomia aberto e sendo tratado puramente como um sistema, um combo de músculos, artérias e ossos não é e nunca será considerado da mesma forma que o roberto marinho foi quando morreu.

não é que eu esteja igualando os feitos de um mendigo e os um cara como esse, mas é estranho que mesmo depois de ter morrido, depois de ter contribuído da maneira que se pode para o mundo, os mortos ainda são diferenciados! são corpos, cadáveres... nada além!

e quando o morto vira santo? ou quando as pessoas esperam morrer pra lançar aquela chuva de 'já foi tarde'?
eu nunca frequentei enterros, velórios ou nenhum tipo de cerimônias do tipo, mas não foram poucas as vezes que vi situações que se encaixam nessa citação.
gente chegando em casa e falando que eu não poderia citar/culpar o defunto porque ele já não estaria entre nós para se defender.
ok, o argumento é válido, mas também me parece estranho não poder mais dizer que um o cara não prestava só porque ele morreu! é um tal de 'minha santa maezinha' pra cá... 'meu santo marido' pra lá... ai! ¬¬'

em contrapartida, tem aqueles que pagam de bons samaritanos, corretos e de boa família, mas basta a pessoa morrer e os podres começam a aparecer mais rápido que seus próprios vermes!
e aí, as pessoas que amavam, que devotavam, que idolatravam começam a querer colocar o cidadão na cruz já depois de não poder confirmar se os ditos são verdadeiros!
ê, mundinho!

e eu gostaria de entender porque é que a morte é assim tão temida. será que é só pelo fato de não conseguir tempo suficiente para fazer tudo que se quer? será que é por medo de doer? de ir para o inferno? de não ter onde cair morto?
e o medo dos mortos? se já foram vivos um dia e conversavam, por que temer quem tanto se gostava?

dia desses aí morreu o michael. um alvoroço!
não que não tenha sido merecido, era o reconhecido e aclamado 'rei do pop', mas daí a fã chorar como se chora a morte da própria mãe?
daí a ganhar mais dinheiro com a morte do que com a vida?
daí a achar que nada mais tem sentido, que o mundo está perdido e que não vai trabalhar porque michael morreu?

calma lá, estão querendo me fazer de sem coração quando me parece que o mal que tenho é sensatez!
eu pensei muito antes de terminar e publicar isso, porque não foram poucos os que me acharam insensível demais, mas é assim que eu penso, vou fazer o quê?
como disse a sábia titia penha, 'todo mundo vai morrer!'

abraços.